Uma criança desaparecida, uma mãe acusada, um erro judicial
18.09.2007, Alexandra Prado Coelho
No início dos anos 80, um bebé desapareceu de uma tenda num parque de campismo na Austrália. A mãe, que disse sempre que a criança fora levada por um cão selvagem, foi acusada e presa. Três anos depois foi libertada e a pena revogada. Lindy Chamberlain-Creighton veio agora defender os pais de Madeleine McCann.
Na semana passada, uma mulher australiana falou em defesa do casal McCann. “O que eles estão a passar parece um espelho do que eu passei”, disse Lindy Chamberlain-Creighton, 59 anos, três dos quais passados na prisão sob a acusação de ter morto a sua filha de dois meses, Azaria. Em 1988, Lindy foi libertada, e a sentença de prisão perpétua a que tinha sido condenada foi revogada depois de novas provas terem obrigado a uma reabertura do processo.
A história tem, de facto, muitos pontos em comum com a do desaparecimento de Madeleine McCann, de quatro anos, em Maio, na Praia da Luz, Algarve.
A 16 de Agosto de 1980, Lindy, o marido Michael, e os três filhos do casal, Aidan, de seis anos, Reagan, de quatro, e Azaria, chegaram ao parque de campismo de Uluru (uma zona conhecida como Ayers Rock). No dia seguinte, a mãe deu pela falta da bebé na tenda, da qual tinha visto sair um cão selvagem. No interior da tenda havia sangue. O corpo de Azaria nunca foi encontrado, apesar das buscas intensivas feitas por toda a área.
O caso fascinou os australianos, que não se cansavam de ler todas as notícias que iam sendo publicadas sobre a família, a investigação, as pistas, as suspeitas. E, depois de um período inicial em que a tese do cão selvagem parecia ter sido aceite pelos investigadores, houve uma reviravolta e as suspeitas centraram-se em Lindy.
Os indícios? Vestígios de sangue encontrados no carro da família (mais tarde soube-se que não era sangue e que tinha havido erros nas análises) e, entre outras coisas, o que muitos consideravam ser um comportamento “estranho” por parte da mãe. O actual marido de Lindy, Rick Creighton, tem um site (www.lindychamberlain.com) em que conta a sua versão da história e onde recorda como “muitas pessoas disseram que Lindy tinha olhos de assassina”. Lindy nunca chorou na tv.
As questões que surgiram relativamente ao comportamento da mãe de Azaria são semelhantes a algumas das que surgem agora relativamente a Kate McCann. Escreve Rick Creighton: “Será porque Lindy nunca foi vista a chorar na televisão? Isso não quer dizer que ela não tenha chorado, mas apenas que quem controla o que se vê na televisão não escolheu mostrar isso. Será porque ela não se comportou como as pessoas achavam que se comportariam naquelas circunstâncias? Isso terá contribuído, certamente, mas como é que alguém sabe como irá reagir em circunstâncias tão horrendas que provavelmente nunca terá que enfrentar? Não há livros de instruções para ajudar as pessoas nesses momentos, e Lindy estava a fazer o seu melhor para não perder o controlo.”
O clima contra Lindy fez surgir toda a espécie de teorias. O marido recorda também (para as desmontar) algumas delas. Por exemplo, a de que o nome Azaria significa “sacrifício num ermo” e que os pais, membros da Igreja Adventista do Sétimo Dia, pertenciam a um culto que exigia sacrifícios (mas Azaria quer dizer “protegida por Deus”, explica Creighton).
Dizia-se também que os pais vestiam sempre a criança de negro, o que faria parte desse universo satânico, mas que é desmentido por uma fotografia de Azaria com um vestido branco. E – curiosamente, tal como com os McCann – surgiu um rumor sobre uma Bíblia em que os Chamberlain teriam sublinhado uma passagem comprometedora sobre uma mulher que mata um homem com uma barra de uma tenda.
Há, no site, todo um capítulo dedicado ao papel da comunicação social. Numa das muitas primeiras páginas que os jornais dedicaram ao caso, há uma fotografia de Lindy com a mão sobre o rosto no que parece ser um gesto de desespero, sob o título “A angústia de Azaria”. O que aconteceu, diz Creighton, foi que alguém tropeçou e houve um comentário engraçado que fez Lindy rir. Consciente do impacto mediático de tudo o que fazia, ela tapou a cara.
Lindy aprendera a ser cuidadosa, conta o marido, quando foi fotografada a comer uma sanduíche na zona do desaparecimento de Azaria, Ayers Rock, e o jornal publicou-a com o título “Picnic em Death Rock”, numa referência ao filme Piquenique em Hanging Rock, em que um grupo de raparigas desaparece misteriosamente.
O papel dos media
“Os media têm culpa?”, pergunta a dado momento Creighton. “Têm culpa de Lindy ter sido considerada culpada, de ter passado quase três anos na prisão, e ter tido que lutar oito anos para provar a sua inocência? A resposta curta é “não”", escreve. O que aconteceu não foi uma campanha intencional. Tudo parece, a acreditar no seu relato, bastante mais aleatório. “A atitude dos media em geral em relação a Lindy mudou muitas vezes, à medida que iam alterando as suas histórias para manter o interesse das pessoas e continuarem a vender jornais/revistas/anúncios televisivos. [...] Inicialmente, os media eram “a favor” dos Chamberlain. Mas passadas umas três semanas, em resposta a rumores lançados por membros de alguma comunicação social e agências governamentais, os media começaram a virar-se contra os Chamberlain e a noticiar os rumores. Estes vieram a revelar-se falsos, mas nessa altura o mal já estava feito no que diz respeito à influência sobre a opinião pública”. E se notícias não confirmadas ajudam a aumentar as vendas, afirma Creighton, “não culpem o editor ou o dono do jornal – somos nós, o público, que estamos a comprar o jornal e a premiar o editor pela sua escolha de títulos”.
A peça-chave
Condenada por assassínio de Azaria em Outubro de 1982, Lindy teve a sua quarta filha, Kahlia no mês seguinte, na prisão onde passaria quase três anos. Em Fevereiro de 1986, o processo foi reaberto depois de uma peça de roupa de Azaria ter sido encontrada. Porque, nessa altura, se concluiu que os resultados das análises ao que se supunha ser sangue encontrado no carro eram inconsistentes, a pena foi revogada e Lindy saiu em liberdade (a sua história foi contada em vários livros e filmes, entre os quais Um Grito no Escuro, de 1988, em que Meryl Streep interpretava o papel da mãe). Sem o corpo ter sido encontrado, o que aconteceu naquela noite a Azaria permanece até hoje um mistério.
About this entry
You’re currently reading “Uma criança desaparecida, uma mãe acusada, um erro judicial,” an entry on companhia dos fiéis
- Published:
- Abril 12, 2008 / 1:27 am
- Category:
- Sociedade & Cidadania
- Tags:
No comments yet
Jump to comment form | comments rss [?] | trackback uri [?]